quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Apenas mais uma de amor

    Eu não queria ir, meus amigos me obrigaram. Fiquei sabendo, depois, que apostaram quanto a minha presença. Quem apostou que eu iria ganhou, mas foi sorte: fui forçado.
    E lá estava ela. O motivo de eu não querer ir, o motivo do frio na minha barriga, o motivo de tudo. Bela, radiante, era só aparecer pela porta e todos os holofotes viravam pra ela.
    Ela usava um vestido azul folgado até o meio da coxa. Que coxa. As mangas pareciam de morcego. Era bem estiloso, deixava-a sexy. Os cabelos escuros, um pouco abaixo dos ombros, ondulado nas pontas. Moreninha. Com tanta beleza eu me tornava uma mistura de bobo, retardado, idiota. Talvez um pouco safado, mas esse ficava só na cabeça. Procurei não prestar muita atenção para não assustá-la. Deu certo! Até esqueci um pouco dela.
    Em um dado momento decidi ir à varanda, a coisa mais perfeita que um homem já pensou e inventou para um apartamento.
    Lá fora estava batendo um vento bom, meio forte. Parecia que ia me carregar! O céu estava negro, poucas nuvens e com estrelas. Era perfeito. A lua parecia alguém procurando por conversa. Fiz esse favor, eu também queria conversar. Precisava. Logo depois ela veio à varanda.
    - Ah! Você já está aqui... desculpa. – e virou pra ir embora.
    - Não! Tudo bem. Pode ficar – eu queria mais é que ela ficasse mesmo.
    - Obrigada.
    Já tinha passado uns três minutos e a gente só conversou isso, que vergonha. Decidi acabar com isso:
    - Está uma noite perfeita, não?
    - É! Adoro esse vento e graças a Deus hoje tem estrelas.
    - Algo em especial com elas?
    - Minha mãe.
    - Hãn? – fiquei sem entender nada.
    - Ah, é meio bobo. Minha mãe morreu quando eu era pequena. Antes disso nós ficávamos deitadas vendo as estrelas. Acredio que agora ela seja uma.
    - Não é bobo. É lindo – ela soltou um sorriso – Se eu pudesse te daria uma estrela. Ou faria com que toda noite tivesse estrelas.
    - Ah, obrigada. – ela falou com um sorriso no rosto. Acho que gostou do que falei!
    Era agora! O momento perfeito pra falar com ela. Pra magia! Até pra roubar um beijo dela!
    - Hum... vou voltar lá pra dentro, té mais.
    Droga! Eu não queria falar aquilo. Eu nem queria sair da varanda. Não acredito, deve ser fraqueza mesmo.
    Bom, não foi hoje. Espero que seja um dia. Se não for, basta esquecer. Acho que vou sobreviver.

"Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
E eu vou sobreviver..." 

Para Postagem Coletiva. Passa lá, tem outros querendo contar suas histórias de amor!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Coração de Lobo

Como pode alguém sentir
Saudade de algo que nunca viu?
É... mas eu já fui!

Fui expulso do céu
por vontade própria.
Usei da razão
para armar a expulsão.

Passei de criatura divina
A um ser monstruoso.
Um ser feroz, desumano, perverso.
Mas não foi assim!

Foi na forma de monstro
Que conheci a beleza da vida.
Foi na forma de monstro
Que eu a conheci.

Agora vago pelo mundo,
Não sou monstro, não sou divino.
Nunca desprezei tanto
A normalidade.
O que mais quero é
Voltar a ser monstro.

Fechada a minha boca cala
O que meu coração quer gritar.
Em batidas rápidas ele tenta berrar
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Nesse uivo
O coração monstruoso
Só quer bradar sua saudade.
Clamar seu desejo.

Uivar de amor.
Uivar o seu amor.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sonho

    Sempre sonhei com o amor. Como deve ser bom estar sempre ao lado de quem amamos, eu pensava. Mas o fato é que eu nunca imaginei como iria me apaixonar assim.
    Claro! Não posso dizer que nossas conversas não ajudaram, mas foi naquele dia que eu suspirei pela primeira vez. Você e suas amigas andavam e eu apareci do nada. Falei com todas de longe. Rápido, pois vocês estavam com pressa. Mas, enquanto falavam alguma coisa, eu precisei te olhar; te ver. E foi aí!
    Nossos olhos se encontraram, éramos só nós dois e sei que também sentiu isso. Foram milésimos de segundos, mas pareceu uma eternidade. Ainda lembro como pareceu que não acabava. E eu não queria que acabasse. Senti-me no céu, nas estrelas, nuvens; na lua. A felicidade, euforia e excitação que senti naquele momento que nunca saíram de mim. E acho que nunca vão sair.
    E a despedida daquele encontro foi ainda melhor. Aquele abraço que dizia que queria estar próxima de mim. Tão próxima como éramos naquelas conversas até 5h da manhã.
    Sei que nunca mais tivemos uma conversa daquelas. É até provável que nunca mais tenhamos. E também sei que não tive a oportunidade de estar ao seu lado mas já sei como me “apaixonar assim”. Você me ensinou um pouco sobre o amor e sobre amar. Acho que já posso considerar esse sonho realizado. Ou pelo menos metade dele.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Colorindo de cinza

    É preciso confessar: tinha sido um dia cansativo. Não queria mais nada que chegar em casa, pegar um copo de coca-cola e gelo, botar música no volume máximo e deitar na rede. E foi o que fez.

    Deitado, olhava para o céu e não via. Nem tinha percebido que já estava escuro. Perdido em pensamentos, ria do inferno que tinha sido o dia. “Ângelo, faz isso!”, “Ângelo, faz aquilo!”; “Ângelôôô! Preciso de ajuda!”. Tudo aquilo passara, estava de férias. Podia ficar ali, parado, olhando para o longe. Podia pensar em tudo ou não pensar em nada. Não queria mais ouvir as lembranças do dia que tivera, melhor ouvir a música baixinha que aparece no ar.

    "Hum! Como eu gosto dessa música", pensou.
    Aquelas lembranças infernais do dia saíram dando espaço àquela música, bem diferente do rock pesado que tanto gostava. Era bem light. “Now I'm higher than a kite, I know I'm getting hooked on your love, talkin' to myself, runnin' in the heat, beggin' for your touch in the middle of the street.” Abriu os olhos e não mais estava na varanda. Via tudo do alto, como se fosse uma pipa!

     De lá via uma criança rindo; risada gostosa. Um jardineiro cuidando de seu jardim, duas crianças chinesas correndo, um casal abraçado no alto de um monte observando o céu. "Espera, pensou, esse sou eu!" E, em um piscar de olhos, estava na varanda. Finalmente percebeu o céu.

    Poetas versariam sobre esse céu. Era de um escuro que reinava, majestoso, no alto. Pontos brilhantes fazendo papel de estrelas e uma lua cheia pairando como uma bola de cristal. Um céu sem nuvens.

     Era maravilhoso, exceto por ela. Ela por quem aquele tolo suspirava, por quem ele vivia de coração aflito e acelerado. Conversavam tanto sobre noites, luas, mistérios noturnos... Hoje não existe mais aquele papo solto, livre, só um assunto concreto. Cadê aquela vontade de conversar sobre nada?

    Naquele momento encheu-se de cores frias o que antes era só alegria. Era tão injusto que o mundo inteiro fosse tão colorido e feliz e o dele tão cinza, solitário, aflito.

    Não desatava aquele nó em sua garganta. Chovia. Não sabia se o rosto estava molhado de lágrimas ou de chuva. Decidiu, então, entrar. O que restava era dormir.